A primeira coisa que gostaria de discutir com você
para além da técnica de CNV é a compaixão. A comunicação não-violenta parte
desse princípio e acredito que é aqui que se encontra todo o seu propósito.
O Marshall começa nos dizendo que acredita ser da natureza
humana “dar de coração”. Eu entendo isso como a força compassiva que nos move,
nos inclina a ação, com o objetivo de apoiar alguém que está precisando, sem
necessariamente, esperar em troca algo equivalente.
Ele diz que quando nos doamos de compaixão, recebemos
em troca uma alegria genuína que vem de servimos com a vida de outra pessoa
É diferente de agir por barganha. Fugir de uma
punição, ter uma aceitação, por algum estímulo específico.
A gente vive nesse paradigma. Estamos sob um sistema
completamente baseado em troca. Trocamos nossa força de trabalho por dinheiro
pra trocar por coisas. E isso está impregnado na maneira que a gente se
relaciona também.
E mesmo dentro dessa cultura, desse paradigma que é
controlador e também violento, o dar de coração se manifesta. Eu vejo, todos os
dias, pessoas agindo pela compaixão. De gestos simples a coisas realmente
grandes.
E foi a partir disso que o Marshall sistematizou a
CNV. Quando ele começou a se perguntar o que fazia com que a compaixão se
manifestasse, mesmo em condições desfavoráveis. E o que nos afasta dessa
qualidade que é natural?
Ele entendeu que essa capacidade está diariamente
relacionada a nossa linguagem. Disso vem a CNV
Acontece que, nossa linguagem, dentro dessa cultura,
no paradigma do controle, é uma linguagem desumanizadora. Isso não é mero
acaso. Ela nos objetifica a fim de nos encaixar as hierarquias e servir, sem
questionar a uma minoria dominante.
E é aqui tá toda a estrutura da nossa fala. Do nosso
olhar. Do modo como nomeamos as coisas. Aprendemos a identificar o que está
"errado". Qual o comportamento "certo" para que em cada
situação sejamos pessoas "adequadas", "boas" pessoas dentro
dos nossos contextos. Bons profissionais, bons maridos, esposas, filhos,
estudantes, etc.
Nossa linguagem, nos ensina a olhar pra fora e
analisar comportamentos. O tempo inteirinho. Ficamos alienados para nossos
estados internos.
Somos coisas. Máquinas condicionadas pra realizar uma
função. E, se sou objeto, se você é objeto. Como vamos nos conectar
compassivamente? Fica muito complicado.
A CNV então quer resgatar o olhar pro ser humano e
assim facilitar que a conexão estabeleça entre as pessoas.
A coisa da compaixão é que, mesmo nessa estrutura
profundamente violenta e coisificadora, ela se manifesta. E eu vejo isso todos
os dias. É um poder enorme que a gente tem. Poder que o Marshall chama de poder
com. Força que se realiza e transforma o mundo.
E se a gente se apropriasse desse poder, que é
infinito, e que mora dentro da gente? A ideia da CNV é essa.
E quando foco na técnica, na fala, que é só uma das
estratégias de manifestar o poder com, posso acabar me esquecendo, fazendo
dessa técnica uma simples maneira de conseguir o que quero. Ser influente,
manipulador. Dessa forma, estarei preso no poder sobre. Na tentativa de mudar o
outro. E isso faz parte daquele mundo. O hierárquico, violento e desumanizador.
Por isso, para além da técnica, nunca se esqueça:
compaixão.
As palavras são mero pretexto, é o coração que nos
leva um para o outro.
Grande abraço!
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