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Pós-verdade: quando o fato já não importa mais...

2018/10/15 | Nenhum comentário | |








Você provavelmente já ouviu falar do termo pós-verdade. Foi eleita a palavra do ano de 2016 pela universidade de Oxford.

 É um termo que aparece com muita frequência na hora de definir nosso atual momento político-histórico. Pós-verdade quer dizer que os fatos objetivos, ou seja, a verdade, tem uma importância secundária na hora de moldar a opinião pública, diante das crenças e das emoções das pessoas.

Em outras palavras, diante de uma informação, seja uma notícia, um vídeo, uma entrevista, enfim.. O mais importante é se aquilo vai de encontro às minhas crenças ou não. A minha opinião é aquela e é imutável, não importando se há um fato que a descontrói.

1) Se vem pra corroborar o que sinto e acredito, então pra mim aquilo é verdade. As fontes são confiáveis e quem fala tem credibilidade. 

2) No entanto, se é contrário à minha visão, então não há o menor problema pra mim descartar aquilo, a fonte não presta e quem fala é mentiroso e mal caráter.

E como é fácil ver que assim que as coisas estão funcionando, não é?

Pós-verdade e viés de confirmação


Junta-se a isso:

> a velocidade e o volume da informação que nos esmaga, não nos dando tempo de processar, de racionalizar, de questionar, verificar... De talvez aproveitar parte, descartar parte; 

> as bolhas sociais cada vez mais intensificada pelas redes; 

> as próprias redes que são desenvolvidas para o entretenimento e não exatamente para a fertilização de ideias; 

> o paradoxo da proteção física que a internet nos oferece ao mesmo tempo que nos coloca em posição de extrema vulnerabilidade e exposição social diante de nossa família, amigos e contatos fundamentais a nós. E por aí vai...

Todas essas coisas se retroalimentam e acho que explicam parte do caos que estamos vivendo atualmente.

A internet como um marco histórico da humanidade


Eu sempre fui muito idealista com relação a internet. Acredito, de verdade, que não há progresso sem acesso. E que a revolução do universo online poderia, pela primeira vez, permitir o acesso universal às informações de maneira aberta e democrática.

Sempre acreditei nisso como um marco na trajetória da humanidade. Como a descoberta do fogo ou a revolução industrial.

No entanto, parece que estamos vivendo alguns efeitos colaterais fortíssimos e talvez até irreversíveis, não é? Vejo que estamos aprendendo ainda a se relacionar com tudo isso e que um novo campo de conhecimento vem surgindo ao mesmo tempo que às coisas continuam mudando de forma assustadoramente rápida.

Termos como pós-verdade nos ajudam a entender melhor como nós, enquanto sistema, nos comportamos e nos adaptamos ao novo mundo.

Contudo, e esse é o motivo do meu vídeo/texto, pra assimilarmos de verdade e conquistarmos mais autonomia a fim de construir uma relação saudável e fértil com a tecnologia, eu entendo que é muito necessário que a gente consiga olhar também para a dimensão do eu. Como eu, na condição de indivíduo, na minha subjetividade, interajo com todas essas possibilidades?

A minha experiência pessoal


Quero compartilhar com você uma experiência recente que me trouxe essa compreensão.

Na disputa do segundo turno do meu estado, me deparei no Twitter com o que seria o plano de governo do candidato o qual não gosto (crença: ele não vai fazer um bom trabalho, é um pilantra; sentimento: medo, repulsa, raiva).

Nesse papel, havia algumas propostas que considero absurdas e que acredito que a maioria das pessoas também achariam. Aquilo foi munição pra mim. É isso que vejo quando tento desvendar meu mundo interno naquele momento. Eu iria desmascará-lo. E tudo o que eu já intuía sobre ele finalmente seria provado verdade.

Compartilhei primeiro em um grupo de amigos e me perguntaram como poderíamos me confirmar que aquele era realmente o plano de governo dele e não algo forjado.

Instantaneamente eu argumentei: “não é possível que alguém formataria todo um plano de governo, do início ao fim, mais de 30 páginas subdivididas, com índice, rodapés, nº de CNPJ e usando toda a identidade visual do candidato pra poder incriminá-lo”.

Mas convenhamos, tudo tem sido possível ultimamente. Acontece que na hora, e eu consegui ter a clareza de perceber, eu estava incrivelmente resistente de procurar a veracidade daquilo. Era a pós-verdade agindo em mim. Mesmo que já soubesse do conceito, mesmo que já tendo o estudado, mesmo conseguindo identifica-lo todos os dias nas outras pessoas... Naquele momento, fortalecer e impor a minha crença era o mais importante. Eu não queria descobrir se tal era fake ou não.

Com isso percebido, fiz algo inusitado pra mim, pesquisar de onde vinha aquele material. No site do TSE, o plano era outro. No site do candidato aquele material não existia. Até que, uma hora de procura depois, descobri que aquele realmente foi um material lançado pelo candidato que o retirou de seu site por propor várias coisas impopulares. Descobri que apesar de retirar o link, o PDF ainda estava hospedado lá, e essa era a prova de que eu precisava.

Hoje, esse mesmo candidato, fala que atribuíram essas propostas a ele com a intenção de ataca-lo. Enquanto outros continuam a acusa-lo. E o que fica? A pós-verdade de cada um.

Um convite a você:


Viver isso foi um divisor de águas na minha relação com os debates online. Me sinto mais seguro, autônomo e confiante pra me informar, construir e aprender. Sei que muitos insights desse tipo virão e acho importante que a gente se mantenha falando sobre isso.

Por isso estou aqui, gostaria de te perguntar: como você se relaciona com a pós-verdade? Como você confronta os seus vieses? É assertivo, proativo? Tem se deixado levar pela avalanche de dados?

Você tem construído, provocado o seu intelecto? Ou se encontra perdido no mundo das crenças? Tem alguma história a respeito pra compartilhar comigo?

Perceba que, por mais grave que esteja a nossa situação atual, o que proponho aqui vai além. A gente vai precisar se refinar nisso, é uma urgência, independente dos resultados que vierem.

Ainda não existe outra maneira de se combater a indústria fake, os robôs e todos esses algoritmos se eu não for capaz de olhar pra mim mesmo e perceber como me relaciono com isso. O que são agências de checagem e outras ferramentas se projeto o meu viés de confirmação nelas também?

Não há solução que não passe por um exame profundo de nossos sentimentos e necessidades!

Essa é a ideia que queria compartilhar com você hoje, espero que tenha sido útil de alguma forma!

Grande abraço!

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Relacionamentos abusivos: o que é, como acontece e como você pode se ajudar ou ajudar alguém.

2018/03/08 | Nenhum comentário | |


Relacionamentos abusivos


Você está sofrendo violência em seu relacionamento?
Conhece alguém que está e gostaria de ajudar?

Essa é uma questão de saúde pública delicada, importante e que afetas muitas mulheres no nosso país.

Pollyanna Abreu, psicóloga especializada em Terapia Comportamental (análise do comportamento), veio ao O Espaço pra falar um pouquinho pra gente sobre relacionamentos abusivos. Um tema de saúde pública delicado, importante e que afeta muitas mulheres.

A Polly se dedica e desenvolve muitos trabalhos sobre o tema. Ela está aqui no grupo com a gente e também atende em Belo Horizonte.

E-mail: pollyannaabr@gmail.com
Cel.: 31 99283-8113

Ela nos traz muita informação interessante. Informação que pode ajudar a salvar e libertar alguém que precisa. Por isso gostaria de te pedir para compartilhar com o máximo de pessoas que conseguir, ok?

Segundo relatório da ONU, 1 em cada 3 mulheres no mundo vai sofrer violência algum momento de sua vida.  Alguém próximo pode estar precisando receber este material.

Informação é liberdade.

Abaixo, transcrição completa da entrevista:




Então, o que é um relacionamento abusivo?  Quais os tipos de abuso?


Abuso verbal/psicológico e/ou fisicamente: desde um chacoalhão, um aperto mais forte no braço, beliscão, até tapas na cara, espancamento, ameaça com facas e outros objetos, pressionar ou obrigar o parceiro a ter relações sexuais ou impedir o controle de natalidade/uso de preservativo e perseguição, cárcere privado, tortura e  feminicídio ( termo que designa o assassinato de um mulher por razões estritamente de gênero).

A violência psicológica também pode ocasionar a morte da vítima, seja porque o maltrato evolui à agressão física ou porque a própria vítima se mata de tão deprimida que fica.

Existe também o abuso de ordem financeira/patrimonial se caracteriza, quando o parceiro proíbe o outro de trabalhar, controla o gasto do dinheiro, proíbe o acesso a contas bancárias, não envolve em planejamento financeiro, entre outras ações.

Começou a ser reconhecido também o abuso de ordem tecnológica, que se manifesta pelo controle das redes sociais, como, por exemplo, dizer quem se pode adicionar ou não ao perfil, pela insistência em obter senhas pessoais das redes do parceiro (a), monitoramento de celular e outras ações.

Existem dois cenários: a mulher que está em um relacionamento ou  já esteve em um ou a mulher que já esteve em vários, então ela tem um padrão de se relacionar assim.

Quem tem um padrão de sair de um relacionamento abusivo e ir para outro, teve uma família desajustada e cresceu com sua capacidade de se relacionar e de sentir prejudicada. Sempre tem atração por homens que não têm nada a  oferecer, e que não querem o que ela tem a oferecer-lhes.

Ela acha o homem instável é excitante, o não-confiável é desafiante, o imprevisível é romântico, o imaturo é charmoso. Ela não tem atração por homens com quem não tem conflitos, acha ele tediosos e bobos.

Esta determinada a salvá-lo através da força do seu amor.

Apesar de focar hoje nas mulheres em um relacionamento abusivo vale ressaltar que não tem classe social, gênero, raça ou orientação sexual.

relacionamento abusivo como saber se estou em um

Quais são os sinais/ situações de que você esta em um relacionamento abusivo? Como perceber?


As vezes para a mulher é muito difícil admitir que algo esta errado no relacionamento ou até mesmo perceber que esta em um.

Temos vários indicativos de que você possa estar em um relacionamento abusivo: ciúme e possessividade exagerados; controle sob as suas decisões e ações; querer te isolar até mesmo do convívio com amigos e familiares; desqualificação da companheira e a humilhação, a impressão é a de que você nunca fala nada de bom e está sempre completamente equivocada, você começa a questionar sua própria compreensão da realidade, será que to louca? As ações dele fazem você se sentir estranha ou questionar se o que aconteceu foi normal. E as vezes o parceiro fala que você é louca, que ninguém nunca vai te amar como ele, que você não vai encontrar ninguém.

Pode ser que ele queira que você troque de roupa. Que tire seu batom vermelho. Ou não goste que você tenha amigos homens. Ou, ainda, tente controlar onde você "pode" e "não pode" ir e com quem.

 

Ele faz você sentir que a culpa por ele ser agressivo ou ameaçador é sua.


Você não tá a fim de transar, mas ele insiste. Ou então você "acaba cedendo" porque quer agradá-lo. Ele faz você se sentir culpada ou na obrigação de satisfazê-lo. E pode acontecer o estupro mesmo.

Durante alguma briga, ele te segurar com força deixando as marcas dos dedos deles nos seus braços, ou quando ele tenta te abraçar à força quando você não quer mais ficar perto dele.

 

A mulher acaba cedendo as vontades dele para evitar brigas.


E tem alguns processos que acontecem e dificultam o reconhecimento de abuso: nem tá tão ruim assim, posso suportar mais ainda. Confundir ciúmes e controle com cuidado também não ajuda.

relacionamento abusivo como identificar


Ciclo da agressão

 

O Ciclo da agressão é um ciclo bastante perigoso: acontece a violência física e/ou verbal, vem a briga onde ele é agressivo ou explosivo, depois vem o período de lua de mel onde ele promete que não vai mais fazer/ falar isso. É quando ele se mostra arrependido, chora, diz que sabe que fez merda, promete que vai mudar, que vai fazer terapia, te dá presentes, fala o quanto te ama, te valoriza, te ouve, muda de sapo para príncipe. Nesse momento ele é incrível. Da a sensação que ele mudou de verdade ou que foi uma agressão isolada. É nessa hora que a mulher desiste de denunciar o abusador ou desiste de sair do relacionamento.


Nesse período, parece que vai ficar tudo bem. Mas pode demorar horas, dias, um mês, um ano: o ciclo da agressão sempre dá a volta. Mas, entre uma volta e outra, as agressões podem se tornar piores.  Da agressão verbal pode ir para a física, e do tapa na cara pode ir para o espancamento e feminicidio.

O cara abusador é bom em outras coisas, tem atitudes generosas, é simpático, trabalhador, inteligente, um bom amigo, com todas as outras pessoas, ele é ótimo, mas é extremamente violento com a companheira, no espaço privado.

Isso torna a cena confusa. A dúvida acaba quando você se vê em um hospital, precisando de atendimento médico, após receber chutes e socos na cabeça.

Às vezes a situação fica muito pior e incontrolável antes que a mulher admita que precisa de ajuda e dai as coisas começam a melhorar.

Dados

Uma em cada três jovens já vivenciou algum tipo de abuso em suas relações amorosas. A violência física, sexual ou psicológica continua a marcar a vida de três em cada 10 nordestinas. 

Realizado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com o Instituto Maria da Penha, mostrou que 4 em cada 10 mulheres crescidas em um lar violento acabam sofrendo a mesma violência na fase adulta, Ao mesmo tempo, 40% dos parceiros que cometem agressões também residiram em lares violentos. Fenômeno definido pelos pesquisadores como "transmissão inter-geracional de violência doméstica".

Segundo o Mapa da Violência 2015 | Homicídio de Mulheres no Brasil, duas a cada três vítimas de violência atendidas pelo SUS são mulheres.

relacionamentos abusivos como enfrentar


Negras e pobres sofrem mais violência: com o aumento da renda, a vulnerabilidade da mulher diminui. 

O Nordeste é mais desassistido do que as regiões Sul e Sudeste no que tange às políticas para mulheres. Os homens também devem ser inseridos dentro das políticas públicas de combatem a violência doméstica. Uma política como esta, que tenta verificar o comportamento masculino e melhorar esse comportamento sem dúvida pode ser muito benéfica.

A pesquisa também revela que a violência doméstica prejudica a vida profissional das mulheres no Nordeste, o salário das mulheres vítimas dessa violência é 10% menor do que o de mulheres que não sofrem dessas opressões, além disso, a duração média no emprego é 21% menor quando comparadas com mulheres que não sofrem violência doméstica.

Entre 84 países, o Brasil é o sétimo no ranking de assassinatos de mulheres. Além disso, segundo o Ministério da Saúde, são de 40 a 50 mil atendimentos anuais devido à violência doméstica. Maior parte das mulheres assassinadas, no país, está na faixa dos 20 aos 39 anos. Dois terços dos casos denunciados foram os companheiros ou ex companheiros.

Quando a gente junta esses números e olha de forma estatística, você vê que não se trata de um problema doméstico, individual, mas sim de saúde pública, de educação. Tudo o que esta mulher está passando a vizinha tá passando, a mulher da rua de baixo está passando, a mulher de outro bairro está passando.

O que fazer então? Denúncias, tratamento e como ajudar


Educação, punição e proteção seriam a tríade a ser colocada em prática para evitar que mais mulheres sejam agredidas.

Conversar sobre, muito.. precisamos falar disso, em todos os lugares, para todos os tipos de pessoas. Mudar a forma como nossa cultura vê o amor. Tanto sofrer por amor como ser viciada num relacionamento são fatos romantizados por nossa cultura. De música popular a ópera, de literatura clássica a romances mais suaves, de novelas a peças teatrais e filmes aclamados pela crítica, somos rodeados de inúmeros exemplos de relacionamentos não recompensadores e imaturos que são glorificados e exaltados. Mais e mais esses modelos culturais dizem-nos que a intensidade do amor é medida pela dor que causa, e que aqueles que sofrem realmente amam realmente.

Infelizmente o nosso sistema penal ainda é muito frágil com os casos de violência doméstica. O motivo de ficar na relação abusiva pode estar associado ao medo!

Ainda assim é muito importante ir até a delegacia da mulher e fazer um boletim de ocorrência. (abuso psicológico é considerado tortura emocional, pode denunciar)

Você pode conversar com alguém de sua confiança, ligar para o 180, a Central de Atendimento à Mulher que funciona sete dias por semana e 24 horas por dia, ou procurar uma Delegacia da Mulher. Disque 100 (direitos humanos).

É de extrema importância iniciar terapia e procurar uma rede de apoio, grupos…

Perceber que não é a única a passar por aquela situação pode ser libertador. Nem sempre percebemos o que está acontecendo e falar pode te fazer entender melhor a situação. "Quando a mulher tenta falar e descrever as situações, ela percebe que aquilo não é normal ou natural", 

Conversar com amigas e familiares sobre o assunto. É importante difundir a informação entre as mulheres.

Como ajudar a minha amiga/irmã/colega?
Apoio incondicional e paciência, em primeiro lugar. Se você presenciar uma discussão e perceber algum desrespeito, tem que meter a colher, sim! Muitas vezes, a pessoa que maltrata não percebe que está passando dos limites. Como ela não costuma escutar a companheira, escutar alguém que está de fora pode ajudar.

Denuncias feitas, com rede de apoio, terapia a pessoa começa a se conhecer mais e se planejar ao invés de tentar mudar outra pessoa.

Se relacionar prestando atenção se gosta da pessoa, se passa bons momentos juntos, se acho que ele é uma pessoa agradável.
Viver uma vida saudável, satisfatória e serena, sem depender de outra pessoa para ser feliz. E ai é possível um amor verdadeiro com proximidade e compartilhamento verdadeiro.

Se você está em um relacionamento abusivo ou conhece alguém que está em um relacionamento abusivo, procure ajuda.


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Comunicação não-violenta, capítulo 8: o poder da empatia

2018/02/16 | Nenhum comentário | |




O poder da empatia em curar e conectar


“A empatia nos permite ‘perceber’ nosso mundo de uma maneira nova e ir em frente”. Carl Rogers

Nesse capítulo, aprendemos como buscar empatia pode nos ajudar nas mais diversas e inusitadas situações.


Empatia que cura


Marshall conta que uma de suas amigas, Laurence, descreveu como ficou aborrecida quando o filho de 6 anos saiu correndo enraivecido enquanto ela ainda falava com ele. Isabelle, sua filha de 10 anos, que a havia acompanhado a um seminário recente de CNV, observou: "Então você está com muita raiva, mamãe. Você gostaria que ele conversasse quando está com raiva, e não que fosse embora correndo". Laurence ficou maravilhada de como, ao ouvir as palavras de Isabelle, ela sentiu uma imediata diminuição da tensão e, mais tarde, conseguiu ser mais compreensiva com o filho, quando ele voltou.

“Um dos aspectos mais gratificantes de meu trabalho é ouvir como as pessoas usaram a CNV para fortalecer sua capacidade de se conectar com empatia aos outros”.

No entanto, ele ressalta que, quando estamos inseridos em uma estrutura hierarquizada, como acontece em alguns ambientes de trabalho, por exemplo, há uma tendência a ouvir ordens e julgamentos daqueles que estão em posições superiores. E, por isso, é preciso um esforço maior para ter empatia para com essas pessoas e não receber tudo no pessoal.


Empatia e a capacidade de ser vulnerável


A CNV realmente pode ser desafiadora pra muitos de nós. Ela nos pede o expressar de nossos sentimentos e necessidades em momentos que, por vezes, são delicados. Situações que, por exemplo, temos medo de perder o controle ou a autoridade e tentamos passar uma imagem rígida.

Contudo, essa tarefa pode se tornar menos pesada, quando nos conectamos em empatia com o outro. Nesse momento, percebemos sua humanidade e estamos em contato com qualidades que temos em comum.

Quanto maior a empatia que temos com a outra pessoa, mais seguros nos sentimos para partilharmos.

Quando a pessoa tem em seu histórico situações em que ouviu sentimentos como “isso me magoou” apenas para sinalizar desaprovação, pode ser que, num primeiro momento, ela relute em aceitar a nossa vulnerabilidade, por receio de isso ser usado com o intuito de desaprová-la.

Nesse momento, podemos receber essa desconfiança como a necessidade que ela representa e nos aproximar empaticamente.

“Nós ‘dizemos muita coisa’ ao escutarmos os sentimentos e necessidades das outras pessoas”.



Usando a empatia para afastar o perigo


A capacidade de oferecer empatia a pessoas em situações tensas pode afastar o risco potencial de violência.

Aqui, temos o exemplo de uma professora num decadente centro urbano que escolheu deliberadamente ficar depois da aula para ajudar um aluno, embora os outros professores a tivessem alertado do perigo de ficar até tarde no edifício. Quando um estranho entrou em sua sala e o seguinte diálogo se seguiu:

usando a empatia para afastar o perigo


Ela entregou a bolsa aliviada. Mais tarde descreveu como, a cada vez que oferecia empatia ao rapaz, ela podia senti-lo menos determinado a prosseguir com o estupro.

Aqui também, Rosenberg conta que, em um centro de recuperação química, uma de suas alunas foi agredida por um usuário que estava sob efeito de drogas que a derrubou no chão exigindo um quarto.

Ela, então, segurou o impulso de dizer: “mas não temos nenhum quarto”. E, em vez disso, usou o que aprendeu no seminário de CNV:

“Parece que você está realmente com raiva e quer ter um quarto”.

Ele respondeu gritando: “Posso ser viciado, mas, por Deus, mereço respeito! Estou cansado de ninguém me respeitar. Meus pais não me respeitam. Eu vou ser respeitado!”

Ela concentrou-se em seus pensamentos e necessidades e disse: Você está farto de não obter o respeito que deseja?”

A conversa se seguiu por mais 35 minutos, nos quais, a mulher não via mais o agressor como monstro, mas como um ser humano cuja linguagem e comportamento às vezes escondem sua natureza humana. Ela conseguiu o guiar a outro centro, o qual havia quartos disponíveis.

Ofereça sua empatia, em vez de falar “mas ...” para uma pessoa com raiva.

O curioso é que a mulher depois voltou aos seminários para tentar incorporar CNV junto à sua família. Marshall chama este de um caso poderoso para ilustrar o quanto pode ser difícil responder com empatia aos membros da nossa própria família!


Empatia ao ouvir um “Não!” de alguém


Buscar empatia diante do não de alguém nos protege de toma-lo como pessoal.

Existe uma tendência de entender como rejeição quando alguém nos diz não. Se isso acontecer, é provável que nos sintamos magoados e sem entender realmente o que se passa com a outra pessoa.

Mais uma vez, vale lembrar, a CNV nos tira da alienação que a nossa linguagem nos coloca. Entender que o não do outro carrega um sim para seus próprios sentimentos e necessidades, faz com que tenhamos clareza do que ele está precisando quando nos diz “não”.

Como ousa a me dizer não?!



Empatia para reanimar uma conversa morna



Você com certeza já esteve também em uma conversa daquelas meio mornas. Acontece quando estamos ouvindo palavras sem sentir nenhuma conexão com quem fala ou quando alguém começa a falar sem parar e sem dar chance aos outros de participar da conversa.

“A vitalidade se esvai da conversa quando perdemos a conexão com os sentimentos e necessidades que ocasionaram as palavras de quem fala, e com as solicitações associadas a essas necessidades. Isso é comum quando as pessoas conversam sem ter consciência do que estão sentindo, necessitando ou pedindo. Em vez de nos envolvermos numa troca de energia vital com outros seres humanos, percebemos que nos tornamos cestas de lixo para suas palavras”.

E qual seria o momento certo para interromper uma conversa e trazê-la de volta a vida? O mais rápido o possível.

Quanto mais esperarmos em uma conversa sem vida, mais difícil fica de sermos educados na intervenção.

Mas é importante que saibamos claramente qual é a nossa intenção nesse momento. Não se trata de querer dominar a conversa, mas sim de ajudar quem fala a se conectar a energia vital por trás das palavras que estão sendo ditas.

“Assim, se uma tia está repetindo a história de como vinte anos atrás o marido a abandonou com dois filhos pequenos, podemos interromper dizendo: ‘Então, tia, parece que a senhora ainda está magoada e gostaria de ter sido tratada de modo mais justo’.”

As pessoas não têm consciência de que frequentemente é de empatia que elas precisam. Elas também não percebem que a maneira que é mais provável se receber empatia quando se expressa sentimentos e necessidades, em vez de remoer histórias antigas de suas dificuldades no passado.

Outra maneira de reanimar uma conversa é expressar abertamente o desejo de nos conectar mais profundamente com a outra pessoa.

Parece estranho e inadequado interromper alguém. Mas é mais respeitoso que elas saibam o que estamos sentindo do que fingir um falso interesse, além de também ser um sinal de consideração. A gente prefere palavras que enriquecem a vida do outro e não que sejam um fardo pra eles, não é verdade?

Além do mais, se a conversa que ouvimos nos é tediosa, a chance de ela estar sendo tediosa para quem fala é muito grande. Um teatro social desgastante que não precisa acontecer.


Empatia pelo silêncio


Ter empatia pelo silêncio escutando os sentimentos e necessidades por trás dele.

O silêncio diz muita coisa e a gente pode e deve tentar entender qual a necessidade por trás de quem o faz. Concentrando no que se passa dentro dela. Ao nos concentrarmos nos possíveis julgamentos por trás daquele silêncio, podemos criar monstros horríveis dentro de nós, nos alienando para a realidade que ali está posta.

Certa vez, Marshall recebeu em seu consultório uma paciente de 20 anos que estava há três meses muda, depois de passar por tratamentos psiquiátricos com remédios fortes e choques. Nos dois primeiros encontros, ele tentou fazer observações empáticas, intercalando as com a expressão de seus próprios sentimentos e preocupações. Mas não conseguia nenhuma resposta.

No terceiro dia, ele fez o mesmo, porém dando a mão para a menina. Sentiu uma leve reação. Já no quarto dia, ela o trouxe um bilhete escrito:

"Por favor, ajude-me a dizer o que tenho por dentro".

A partir daí, as coisas começaram a caminhar vagarosamente. Depois de um ano ela enviou uma cópia do seu diário com os dizeres:



Impressionante depoimento. Impressionante também o poder curativo da empatia, você também não acha?

Até o próximo capítulo!




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