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Uma prova de amor... Mas uma prova de quem?

2017/04/22 | 2 comentários | |


uma prova de amor


Depois de um pequeno hiato, a Roda de Conversa do O Espaço e da Vínculo Psicologia está de volta!

Voltamos no mês de março com a quinta edição e com uma novidade muito especial. A partir de agora, toda Roda contará com um facilitador convidado. Que contribui na preparação, com novas perspectivas, novos olhares e agregando em diversidade.

E pra estrear essa participação, convidamos a Sueli da Paz, psicóloga da Elementar Terapias e responsável pelo projeto Cata-verso. Foi Sueli quem sugeriu o filme Uma prova de amor, trazendo junto da sugestão excelentes temas que muito contribuíram para fazer do nosso encontro um momento de partilha único e riquíssimo.

A quinta Roda de Conversa foi como um oásis, onde pudemos beber do bom debate e da construção que advém da boa troca.

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O filme


Sara e Brian Fitzgerald são informados que, sua filha, tem leucemia e possui poucos anos de vida. O médico sugere aos pais que tentem um procedimento médico ortodoxo, gerando um filho de proveta que seja um doador compatível com Kate.

Dispostos a tudo para salvar a filha, eles aceitam a proposta. Assim nasce Anna, que logo ao nascer doa sangue de seu cordão umbilical para a irmã. Anos depois, os médicos decidem fazer um transplante de medula de Anna para Kate. Ao atingir 11 anos, Anna precisa doar um rim para a irmã. Cansada dos procedimentos médicos aos quais é submetida, ela decide enfrentar os pais e lutar na justiça por emancipação médica, de forma a que tenha direito a decidir o que fazer com seu corpo.

Uma prova de amor é um filme que, do início ao fim, toca o nosso coração ao mesmo tempo em que nos coloca pra refletir. Cada cena foi pensada e trabalhada para nos fazer mergulhar fundo na história da família Filtzgerald e uma vez imersos dentro dessa história, debatemos, emocionados, questões como a ética na medicina, o direito, o ser humano, seus limites e limitações, a vida e seus propósitos, a morte e seus mistérios e, principalmente, o amor.

Já dá pra imaginar o quão impactante é o filme, não é verdade?

Como de costume, minha intenção aqui não é fazer uma análise do filme, como uma resenha ou crítica. Mas sim de estender um pouco mais as nossas vivências e o que dividimos na roda, para que você também tenha a oportunidade de interagir e participar conosco.

Então se você ainda não o viu, corre lá e volte aqui depois para seguirmos em frente.

Separei pra você os três pontos da discussão que mais me chamaram a atenção. Essa é a visão pessoal de uma participante, ok? Puxe a cadeira e entre na roda também, a sessão de comentários está ansiosa por receber suas impressões.

Vamos lá:

Uma Prova de amor... Mas por parte de quem?


O título original é My Sister’s Keeper (Guardiã da minha irmã) e a conclusão que chegamos é que Uma prova de amor é uma tradução, por incrível que pareça, muito mais interessante.

Qual é a prova de amor? E de quem é? O título em português não joga um caminho único e já começa nos provocando. Essa resposta talvez não seja tão óbvia.

Seria de Sara Flitzgerald com um amor tão grande a ponto de abrir mão de sua própria vida? Pessoal e profissional. Deixando tudo mais em segundo plano e dispondo a fazer qualquer coisa para salvar a filha. Um amor tão grande que a fez perder toda conexão com o objeto amado?


cameron dias em uma prova de amor


Seria de Anna Flitzgerald, que fez do amor e do cuidado, grande coragem para rebelar-se contra a própria família. Com firmeza e determinação, indo até o fim e entregando tudo o que tinha para atender o que seria o último pedido de sua irmã?

Talvez fosse de Brian Flitzgerald, abrindo mão de uma postura passiva, para tentar contrabalancear as paixões de sua esposa. Um amor sensível às filhas, respeitando o desejo da mais nova, até mesmo naquela que seria a decisão mais drástica. Respeitando o desejo honesto da mais velha de visitar a praia, de encontrar um pouco mais de vida em sua curta existência.

Ou de Jesse Flitzgerald, que superou a dúvida e o medo para por fim no conflito judicial familiar, contribuindo para o abrir dos olhos de sua mãe...

Prova de amor de quem? De toda a família? Que se uniu em prol de Kate, sacrificando-se, cada um como pôde, em função do tratamento da amada garota?

Ou, finalmente, seria de Kate, como observadora do esforço de seus entes queridos, optando por interromper aquela batalha e buscando o fim do ciclo de sofrimento no qual ela era se encontrava como pivô?

O filme é pura intensidade e o amor se manifesta do início ao fim. De inúmeras maneiras. Qual delas mais mexeu com você?

O processo de luto e a conexão


A morte é um tema presente durante todo o filme e podemos perceber o processo de luto acontecendo.

Os estágios do luto, definidos por Elisabeth Kubler-Ross (1969), são:

1. Negação e Isolamento.
2. Raiva.
3. Barganha.
4. Depressão. 
5. Aceitação.

Eles não precisam ocorrer necessariamente de maneira linear: nem todos passam por todas as fases e nem as passam na mesma ordem.

O luto não começa no momento da morte, e sim quando percebe-se que ela é inevitável. Kate se preparou durante muito tempo para morrer, para que tudo ocorresse de forma natural, com o menor impacto possível.

A princípio, não percebemos a fase da negação, talvez por ter sido diagnosticada quando ainda era pequena.  No entanto, podemos ver alguns estágios do processo, como quando ela quebra as coisas em seu quarto, bebendo e ouvindo uma música pesada. Esse pode ser entendido como um estágio de raiva, pelo seu processo e pela perda do namorado.

Além desta, percebemos momentos depressivos de Kate, como quando se sentiu feia por estar careca. Sara, para não ver a filha naquele estado, raspa a cabeça.

Por fim, em outras duas cenas relembradas por Ana, Kate enfatiza que já está pronta para morrer. Preparando um pequeno livro sobre sua vida e vivências, com mensagens para todos da família e um pedido de desculpas para cada um.

kate em uma prova de amor


A família de um paciente em estado terminal também passa pelo mesmo processo e com a família de Kate não foi diferente.

Sara, a mãe, ficou presa por muito tempo no estágio da negação, batalhando e se dedicando para salvar a filha, enquanto caía em alguns momentos no estágio da raiva. Raiva da doença, Raiva de Ana, Raiva por levarem Kate à praia... Sara fez do seu amor, muita intensidade, conseguindo diminuir o ritmo apenas no fim, quando aceita o partir de sua filha. Nessa hora, o filme, que acompanha o ritmo de Sara, também diminui sua intensidade característica. Kate se vai... Sara nada mais podia fazer.

Outro forte momento do processo de morte aconteceu quando Jesse, que conectado ao sentimento de Kate e esgotado pela disputa da família, rasga e deixa voar os pedacinhos de papel do desenho que tinha feito de sua irmã, simbolizando a aceitação da libertação da menina. Jesse compreende o caminho de Kate.

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Nessa parte da roda, refletimos sobre o tabu que é morte, também discutido no encontro sobre o filme Para sempre Alice. Evitamos o assunto, a reflexão, o debate e até mesmo a palavra, como se isso fosse trazer algum tipo de maldição para nós. Como se fossemos atrair morte.

Enxergamos apenas seu aspecto catastrófico, evitando entendê-la como parte do percurso natural da vida.

A gente vive como se nunca fôssemos precisar encarar a morte. Mas esse dia sempre chega, por mais que recusemos a acreditar...
Isso faz do luto, que é uma etapa essencial de reajuste pós-perda, uma vivência muito mais dolorosa.

“A morte não vem de castigo. Ela apenas vem”.

Humanização e empatia.  


Ao final do filme, depois de todo o desgaste, é dada a Kate a oportunidade de ir para a casa, para passar o resto de seus dias com um pouco mais de qualidade. Sara não quis sequer considerar a possibilidade. Havia perdido a conexão com a filha há muito tempo.

De acordo com Psicóloga e especialista Dra. Maria Júlia Kovács, dificilmente um paciente é consultado acerca de seus desejos, necessidades e sentimentos. A preocupação é sempre com a doença da pessoa e seus sintomas, enquanto a pessoa em si fica em segundo plano. Com Kate isso não foi diferente e ela chegou ao ponto de bolar com Ana o plano da emancipação médica. Uma vez que não conseguiria acessar os adultos responsáveis para comunicar que não queria receber um novo rim – operação que já havia sido decidida pelos pais e equipe médica – e estava pronta para partir.

Para Kovács, o indivíduo não é encarado como sujeito e sim como objeto de atuação do médico, passivo, submisso e silencioso. Pode acontecer de o paciente saber da gravidade do seu caso, mesmo que não tenha se informado, mas guardar para si. Por medo de fazer o outro sofrer, por medo de não ser compreendido. Kate nos mostra isso, já tendo consciência da iminente morte, evitou a mãe e procurou pelos irmãos, mais próximos e mais conectados.

Aqui, deparamos com o que eu considero o desafio do nosso tempo: humanizar as relações.

uma prova de amor irmaos


Mais uma vez, podemos trazer a Roda de Conversa sobre o filme Para Sempre Alice, quando discutimos, através do documentário Alive Inside, a busca pela humanização do paciente com Alzheimer, muitas vezes esquecidos pela família e/ou tratados como números/casos por profissionais da saúde.

Não só a relação entre paciente-família e paciente-profissional, o desafio do nosso tempo começa em casa, quando estamos sozinhos. É humanizar a nossa relação com nós mesmos. Praticando autoempatia, autorrespeito e autoperdão. Escutando o nosso interior, reconhecendo nossas limitações, fraquezas e oscilações. Abandonando o sentimento de culpa constante e a cobrança de perfeição.

Aí então podemos ir adiante. Quando a gente se aceita, criamos o caminho para a aceitação do outro. Quando a gente para de se cobrar, abrimos mão também da necessidade de cobrar o outro. E aí podemos construir relações mais próximas, empáticas e saudáveis. Onde cada um tem seu espaço e é escutado. Relações onde o outro é considerado além das posições ocupadas na relação, do status, da hierarquia... Em que é respeitado porque é humano. Alguém que carrega uma história única, necessidades únicas, valores, crenças e visões particulares.

Profissionais-clientes, professores-alunos, pais-filhos... Pessoas de oposto espectro político, de diferente religião, cultura, nacionalidade... Enfim! Antes de tudo, pessoas... Eis o desafio!

E como chegamos até ele? Momentos de partilha como esse são um excelente caminho.




Grande abraço!

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Para Sempre Alice: o humano, o inesperado e o agora.

2016/09/30 | Nenhum comentário | |


 “Assim a gente faz. Finge que manda na morte. Faz que controla a vida. Tem lista de desejos e prioridades. Como se fosse ser atendido.

O lugar se chama Prainha. A água parece uma piscina. Você entra, crente que domina a situação. De repente tudo muda. Aparece correnteza para a direita, para a esquerda e redemoinhos no meio. Não é assim também a vida?
As pessoas se vão. A gente tenta segurar, pega na mão. A mão escapa. A gente urra de dor. Geme. Chora. Se desespera. Ai a vida, essa caprichosa. Não tem pena do que faz com a gente?
Mas a morte não vem de castigo. Acho que a morte só vem. Está aí. Faz parte do combo. Entre a porta de entrada e a de saída, aproveite! Seja bom. Faça amigos. Deixe marcas. Borde almas”.
Trechos do texto de Mônica Bayeh sobre a morte do ator Domingos Montagner (Adaptado).


E foi com ele que encerramos, na última semana, a roda de conversa sobre o filme Para Sempre Alice (2015). Esse foi o terceiro – e muito rico – encontro que nasceu da amizade entre O Espaço e a Vínculo Psicologia.

Direto, duro e triste, Para Sempre Alice conta a história de uma renomada professora de linguística que, aos 50 anos e no auge da carreira, é diagnosticada com Alzheimer precoce.




Alice tem muito a nos dizer e sua história oferece reflexões que vão além da patologia e do diagnóstico e nos colocam frente a frente com os problemas relacionados à vida – e à morte. 

Durante o encontro, partilhamos das diversas percepções que o filme despertou em cada um, dividimos histórias e vivências e refletimos sobre outras inúmeras questões. Mas, principalmente, tivemos, através da boa conversa, a oportunidade de, mais uma vez, sair do automático, olhar pra dentro de nós mesmos e nos conhecer um pouquinho mais.

Por isso há sempre um texto depois. Para estender esse momento a você, quero colocar aqui os três pontos que mais me chamaram atenção na nossa conversa.

Então se você não assistiu o filme, pause o texto aqui para assisti-lo e depois volte para conversamos. =)

A troca genuína é uma das bases do O Espaço e na roda de conversa não existe um mediador ou um guia, somos participantes dividindo os seus mundos, assim sendo, este texto não é uma posição oficial, mas o olhar de um dos presentes.

E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto.



roda de conversa o espaço para sempre alice
povo bunituu!!


O desafio do Mal de Alzheimer


O Alzheimer é, sem dúvidas, uma das doenças mais tristes. É realmente muito difícil ter alguém querido sofrendo desse mal ao seu lado. É angustiante conviver com alguém que amamos perdendo as suas memórias, esquecendo-se da própria história, esquecendo-se de quem é.

É compreensível que, tamanha a dor, algumas pessoas não consigam ficar por perto e tenham que se afastar.

Mas e o paciente?

Para Sempre Alice é o primeiro a colocar em foco aquele que Alzheimer e não somente quem está ao seu redor. E isso é muito significativo.

Como ele se sente? Ele ainda está lá? Se ele vai esquecer logo depois, então de que vale cada momento?

mal de alzheimer para sempre alice


Em certa altura, a família de Alice está discutindo o seu futuro, como se ela não estivesse ali. Todos falam dela na terceira pessoa, ignorando a sua existência no mesmo ambiente.

O Alzheimer é uma doença que faz com que o seu portador deixe de responder como ele é. O seu esquecimento causa constrangimentos e testa a paciência das pessoas.

Contudo precisamos entender que aquela pessoa que a gente ama e respeita ainda está ali. Que ela também se sente constrangida nessas situações. Que ela não é a doença e nem os seus sintomas. Que ela continua sendo a mesma pessoa. E que apesar de esquecer, cada momento vivido tem o seu valor.

Still Alice, o nome do filme em inglês. Ainda Alice, ao pé da letra. Eu continuo sendo Alice, apesar de tudo!

O nosso desafio é buscar não somente a cura, mas em paralelo encontrar meios de humanizar o tratamento. Acredito que aos poucos estamos assimilando isso e que muitas boas pessoas oferecem um cuidado transbordando amor e respeito.

Porém a exceção, apesar de nos inspirar, só confirma a regra.

O documentário Alive Inside – Astory of Music and Memory (Vivo por dentro – uma história de música e memória, em tradução livre) mostra que, como sociedade, ainda não vencemos essa barreira. Evidencia a dificuldade de se adotar medidas no sentido humano. Enquanto todos os esforços das entidades oficiais se voltam aos números, valores, preços, remédios, etc..

A verdade é que nossa cultura aprecia o belo, o jovem e o útil. E quando alguém deixa de ser útil, descartamos. Como uma sociedade de robôs, você existe enquanto é produtivo.

Só que nós somos humanos e quem descarta hoje é descartado amanhã, provavelmente abandonado em algum asilo.

Você vai morar em um novo lar que de lar nada tem. Macas, agulhas, remédios e portas trancadas. Estou em um hospital ou em uma prisão? Quando vim parar aqui? Você não consegue se lembrar. De vez em nunca, alguém vem te visitar, mas você não lembra quem é. Você vai se fechando e fechando, como uma flor que murcha sem água.

Entender que o humano vem antes do belo, do jovem e do útil é o nosso desafio e estamos fechado com ele aqui no O Espaço, portanto me comprometo a trazer pessoas que possuem histórias relacionadas ao Alzheimer, a demência e a velhice em si.


O instante de tempo chamado vida.


Alice era uma pessoa de muitos recursos, tinha bons hábitos, praticava atividade física e de hobby, um jogo de palavras. Um diagnóstico de Alzheimer precoce nessas condições é, no mínimo, inesperado.

Mas assim é a vida. Inesperada. Por mais que a gente se esforce muito para controlá-la.

Vivemos como se nunca fôssemos morrer. Rodeamo-nos de coisas irrelevantes e usamos essas mesmas coisas como obstáculos que nos impedem de ir ao encontro daquilo que realmente importa para nós.

Enquanto esperamos o futuro, lamentamos o passado. E o presente? O presente é para fazer planos e esperar.

Aquele futuro há de chegar!

Ele nunca chega. A morte vem primeiro e quando nos damos conta, esquecemos de viver.

Baita tabu é a morte. Você já pensou na sua? E na daquela pessoa que você ama? O estômago até embrulha.

Que papo ruim! Tá amarrado!
Isola cara! Bate na madeira!

A gente chama até pela superstição.

Tudo para tentar escapar do que é inescapável. E quando acontece, não estamos preparados. E aí, desavisados, estamos contrariados e revoltados. A conseqüência natural da vida se torna um absurdo, uma injustiça.

Mas é possível mesmo se preparar assim para tal fatalidade? Essa é difícil responder.

O que dá pra fazer é viver agora. Viver com plenitude. Mas viver com plenitude hoje! Saber que os planos, os sonhos e os objetivos, apesar de importantes, só existem no futuro – ou no passado – e que só se está vivo no presente. Só hoje, só agora é que dá pra sentir, respirar, tocar, cheirar, ver, ouvir, sorrir... Viver.

mal de alzheimer para sempre alice


O que dá pra fazer é perdoar. Perdoar tudo o que ficou para trás. Perdoar os outros e, principalmente, perdoar a si mesmo. Tirar os pesos dos ombros e olhar para frente. Dá pra erguer a cabeça. O remorso e a nostalgia só existem no passado, mas só se está vivo hoje.

Só hoje é possível viver. É possível enxergar o outro na sua complexidade e singularidade, é possível quebrar a barreira do ego, é possível partilhar boas experiências, é possível construir empatia, é possível colaborar e é possível amar.

Mas só hoje. Todos os dias um novo hoje nasce e, com ele, uma nova oportunidade de viver. O que dá pra fazer é parar de esperar o amanhã.

Carpe diem!



Comunicar com o mundo.


Para Sempre Alice não é daqueles filmes que começam lentamente, tendo picos e reviravoltas. Ao contrário, é forte e acelerado do início ao fim, assim como a doença prematura da protagonista.

A falta de memória é angustiante e, depois da última cena, todos sentimos o baque. As tensões por que passa Alice, certamente, adicionaram uma pitada de bons questionamentos à roda.

mal de alzheimer para sempre alice


Será que está tudo bem comigo? Quais os sintomas iniciais do Alzheimer? O filme nos deixa impressionados e acaba por tocar num evidente sintoma do modo de vida que praticamos. O modo da sobrecarga de informação, da distração infinita e da ansiedade por satisfação ininterrupta.

A facilidade da tecnologia nos permite estar conectados 24 horas por dia. Acostumamos a receber mais informação do que podemos processar e não conseguimos mais nos desligar.

Tentando fazer com que o cérebro trabalhe num sistema multitarefa – como um navegador cheio de abas abertas -, nós não conseguimos nos concentrar, nada merece 100% da nossa atenção. Tudo é muito volátil e a sensação é de que alguma coisa está sendo deixada para trás, parece que estamos sempre esquecendo alguma coisa.

Se desconectar é quase uma ameaça a existência. Estamos viciados.


Toda manhã meu despertador toca às 6h30. Antes que eu arraste meu corpo molenga de debaixo da segurança do meu cobertor quentinho, pego meu celular, deixo-o a centímetros do meu rosto e começo a ver qualquer coisa que perdi durante a noite. Isso não é só o começo da minha rotina matinal, mas também um comportamento rotineiro durante o resto do meu dia — checando, coletando e consumindo conteúdo obsessivamente até eu fechar os olhos e tentar desconectar meu cérebro para dormir. Esse comportamento é chamado de infomania, definido como “desejo compulsivo de checar ou acumular notícias e informações, comumente via celular ou computador.

Quem é que não sofre desse mal hoje?

Porém esse problema não é da tecnologia, esse é um problema das pessoas. Preferimos estar distraídos e entretidos porque não conseguimos lidar com os altos e baixos que é a vida.

Como pessoas mimadas, nós não suportamos lidar com a realidade na forma que ela se apresenta. Procurando fazer da vida uma sequência infinita de momentos de alegria, nós vivemos irritadiços, impulsivos, distraídos, engolindo informação barata para fugir de se comunicar com o mundo.

Se o sinal fecha na minha vez, são 45 intragáveis segundos em que a vida é um infortúnio, até que ele se abra novamente.

Porque se distrair tanto? Porque não deixamos o mundo falar?

A TV vende a fórmula da felicidade como uma sequência de ápices e bons momentos:

A criança soprando a velinha do bolo de aniversário.
A turma super feliz depois do trabalho indo beber aquela cerveja servida por modelos.
O rapaz fazendo a barba e atraindo mulheres lindas.

mal de alzheimer para sempre alice
Imagine só esse café as 7 da manhã de uma terça-feira.
A propaganda da margarina ensina.

Clímax após clímax após clímax...

Com as redes sociais a coisa piorou um pouquinho. Agora somos nós trocando momentos de clímax uns com os outros. Você acorda pela manhã e já tem um “feed de felicidade” cheio de novidades em duas ou três redes sociais.

Assumindo isso como a verdadeira vida feliz, como replicar essa sensação de ápices contínuos em nossa realidade?

Não dá. E que bom que não dá! A vida é uma longa caminhada. Se nos deixarmos interagir plenamente, poderemos encontrar beleza de verdade em cada passo.

O cume da montanha é incrível, mas podemos nos permitir aproveitar a escalada, não é? Desligar o modo distração permanente e registrar verdadeiras memórias no nosso coração.


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